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Pompeia ou
Pompeios[1] (em
latim:
Pompeii) foi outrora uma cidade do
Império Romano situada a 22 quilômetros da cidade de
Nápoles, na
Itália, no território do atual município de
Pompeia. A antiga cidade foi destruída durante uma grande
erupção do vulcão Vesúvio em
79 d.C., que provocou uma intensa chuva de
cinzas que sepultou completamente a cidade. Ela se manteve oculta por 1600 anos, até ser eventualmente reencontrada em
1649.
Cinzas e lama protegeram as construções e objetos dos efeitos do tempo,
moldando também os corpos das vítimas, o que fez com que fossem
encontradas do modo exato como foram atingidas pela erupção. Desde
então, as escavações proporcionaram um sítio arqueológico
extraordinário, que possibilita uma visão detalhada na vida de uma
cidade dos tempos da
Roma Antiga.
Considerada
patrimônio mundial pela
UNESCO, atualmente Pompeia é uma das atrações turísticas mais populares da Itália, com aproximadamente 2,500,000 visitantes por ano.
[2]
História
As escavações arqueológicas estenderam-se ao nível da rua quando do
evento vulcânico de 79 d.C.; escavações aprofundadas em partes mais
antigas de Pompeia e amostras de solo de perfurações em locais vizinhos
expuseram camadas de um sedimento misto que sugere que a cidade fora
atingida por eventos vulcânicos e sísmicos em outras ocasiões. Três
placas de sedimento foram detectadas na cobertura de
lava
que repousava sobre a cidade e, misturado ao sedimento, arqueologistas
encontraram amostras de osso animal, cacos de cerâmica e plantas.
Utilizando o método de
datação por carbono, foi descoberto que a camada mais antiga pertencia aos séculos
VIII-
VI a.C.,
data aproximada da fundação da cidade. As outras duas camadas
separam-se das demais por camadas de solo trabalhado ou pavimento
romano, constituídas por volta dos séculos
IV e
II a.C.
Especula-se que as camadas de sedimento misto tenham sido criadas por
imensos deslizamentos, provocados provavelmente por chuva constante.
Primórdios
A cidade foi fundada por volta dos séculos
VI e
VII a.C. pelos
oscos, um povo da
Itália central, no local onde situava-se um importante cruzamento entre
Cumae,
Nola e
Stabiae. O local já havia sido utilizado anteriormente como porto seguro pelos
marinheiros gregos e
fenícios. De acordo com
Strabo, Pompeia foi capturada pelos
etruscos, e
escavações recentes de fato mostraram a presença de inscrições etruscas e uma
necrópole do século VI a.C. A cidade fora capturada pela primeira vez pela colônia grega de Cumae, aliada a
Siracusa, entre
525 e
474 a.C.
No
século V a.C., ela foi recapturada pelos
sâmnios, juntamente com todas as outras cidades em torno de
Campânia. Os novos governantes então impuseram seu estilo de
arquitetura, ampliando a cidade. Após as
Guerras Samnitas, Pompeia foi forçada a aceitar o status de
socium de
Roma, mantendo, no entanto, autonomia linguística e administrativa. A cidade foi fortificada no
século IV a.C., e durante a
Segunda Guerra Púnica permanceu fiel a Roma.
Pompeia integrou a guerra que as cidades de Campânia empreenderam contra Roma, mas em
89 a.C. foi dominada por
Sula.
Embora uma parte da Liga Social, liderada por Lucius Cluentius, tenha
auxiliado na resistência aos romanos, Pompeia foi forçada a se render em
80 a.C.
após a conquista de Nola, culminando com a tomada de terras pelos
veteranos de Sula, enquanto aqueles contrários a Roma foram expulsos de
suas casas. Tornou-se uma colônia romana sob o nome
Colonia Cornelia Veneria Pompeianorum,
transformando-se num importante corredor de bens que chegavam do mar e
precisavam ser transportados a Roma ou ao sul da Itália através da
vizinha
via Ápia. A produção de água, vinho e agricultura também tornou-se aspecto importante da cidade.
O abastecimento de água era feito por uma ramificação do
Aqua Augusta, construído em
20 a.C. por
Agripa; o canal principal abastecia diversas outras cidades grandes, e por fim a base naval de
Miseno. O
castellum de Pompeia permaneceu bem conservado com o tempo, e inclui muitos detalhes da rede de distribuição e seus controles.
Século I d.C.
Mapa de Pompeia apresentando as principais vias da cidade, a
Cardo Maximus em vermelho e a
Decumani Maximi em verde e roxo. Na extremidade sudoeste situa-se o fórum principal e a parte mais antiga da cidade
A cidade escavada oferece uma amostra da vida romana no
século I, congelada no momento em que foi sepultada pela erupção do
Vesúvio em
79 d.C..
[3] O
fórum, os banhos, muitas casas, e algumas vilas nos arredores, como a
Vila dos Mistérios, permaneceram incrivelmente bem preservadas.
Pompeia era um lugar movimentado, e evidências demonstram diversos
detalhes do cotidiano da cidade. No chão de uma das casas, por exemplo,
está a inscrição
Salve, lucru (Bem-vindo, dinheiro), no local onde funcionava um comércio; jarras de vinho trazem um dos primeiros exemplos de
trocadilho mercadológico,
Vesuvinum (combinando as palavras em
latim para Vesúvio e vinho); e nas paredes,
graffiti mostram exemplos verdadeiros do latim de rua (o
latim vulgar, um dialeto diferente do latim clássico ou literário).
Em
89 a.C., após a ocupação definitiva da cidade pelo general romano
Lúcio Cornélio Sula, Pompeia foi finalmente anexada à
República Romana.
Nesta época, a cidade passou por um amplo processo de desenvolvimento
infraestrutural, a maior parte concluída durante o período Agostiniano.
Da arquitetura do período destacam-se um
anfiteatro, uma
palaestra com uma
piscina central (usada para fins decorativos), um
aqueduto que abastecia as aproximadamente 25
fontes de rua, pelo menos quatro
banhos públicos, um grande número de
domus
e casas de comércio. O anfiteatro, em particular, foi citado por
estudiosos modernos como um exemplo de design sofisticado,
especificamente no quesito de controle de multidões. O arqueduto era
ligado aos três encanamentos principais do Castellum Aquae, onde a água
era coletada antes de ser distribuída à cidade.
[4]
O grande número de
afrescos também ajudaram a formar uma imagem da vida cotidiana na época, representando um enorme avanço na
história da arte do mundo antigo, com a inclusão dos estilos pompeanos. Alguns aspectos culturais eram distintivamente
eróticos, incluindo a veneração ao
falo.
Uma expressiva coleção de objetos e afrescos eróticos foi reunida em
Pompeia, mas, considerada "obscena", permaneceu até recentemente
escondida em um "museu secreto" na
Universidade de Nápoles.
[5]
67-79 d.C.
Visão panorâmica atual do fórum de Pompeia, com o Vesúvio ao fundo
Na época da erupção, a cidade tinha aproximadamente 20,000
habitantes, estando localizada na região onde os romanos mantinham suas
vilas de férias. Os moradores já haviam se habituado a tremores de terra
de pequena intensidade, mas, em 5 de fevereiro de 62, um grave
sismo
provocou danos consideráveis na baía e particularmente em Pompeia.
Acredita-se que o terremoto tenha atingido uma intensidade de 5 ou 6 na
escala Richter, provocando caos na cidade, então em festividades. Templos, casas e pontes foram destruídos, e as cidades vizinhas de
Herculano e
Nuceria
foram também afetadas. Não se sabe quantas pessoas deixaram Pompeia,
mas um número expressivo mudou-se para outros territórios do Império
Romano, enquanto as remanescentes deram início à árdua tarefa de superar
os saques, fome e destruição, enquanto tentavam reconstruir a cidade.
Pesquisas recentes tentam estabelecer quais estruturaras estavam
sendo reconstruídas na época da erupção. Algumas das pinturas mais
antigas e danificadas podem ter sido cobertas por novas, e instrumentos
modernos são utilizados para desencobrir os afrescos ocultos.
Especula-se que a razão de as reformas persistirem dezessete anos depois
do sismo foi o aumento da frequência de pequenos terremotos, que por
sua vez levaram à erupção.
Erupção do Vesúvio
Por volta do século I d.C., Pompeia era uma das várias cidades localizadas no entorno do
Vesúvio.
O local tinha uma população expressiva, que se mantinha próspera graças
à renomada terra fértil da região. Muitas das localidades vizinhas a
Pompeia, como Herculano, também sofreram danos e destruição severa com a
erupção de 79.
Um estudo vulcanológico multidisciplinar e bio-antropológico das
consequências e vítimas da erupção, aliado à simulações e experimentos
numéricos, indicam que no Vesúvio e nas cidades circunvizinhas, o
calor
foi a principal causa de morte, no que anteriormente se supunha ser
devido às cinzas e sufocação. Os resultados do estudo demonstram que a
exposição ao calor de pelo menos 250 °C a uma distância de 10
quilômetros da erupção foi suficiente para causar morte instantânea,
mesmo daqueles abrigados em construções.
[6]
A população e construções de Pompeia foram cobertos por doze diferentes camadas de
piroclasto, que caiu durante seis horas e totalizou 25 metros de profundidade.
Plínio, o Jovem forneceu um relato de primeira-mão da erupção do Vesúvio de sua posição em
Miseno, do outro lado do
golfo de Nápoles,
numa versão escrita 25 anos após o evento. A experiência provavelmente
ficou gravada em sua memória devido ao trauma da ocasião e também pela
perda de seu tio,
Plínio, o Velho,
com o qual ele tinha uma relação próxima. Seu tio morreu enquanto
tentava resgatar vítimas isoladas; como almirante da armada, ele havia
ordenado que os navios da Marinha Imperial atracados em Miseno
atravessasem o golfo para auxiliar nas tentativas de evacuação. Os
vulcanologistas reconheceriam mais tarde a importância dos relatos de
Plínio, o Jovem ao definir situações semelhantes às da erupção do
Vesúvio como "
plinianas".
A erupção foi documentada por historiadores contemporâneos e, em
geral considera-se, a partir do texto de Plínio, que tenha começado em
24 de agosto de 79. As escavações arqueológicas, no entanto, sugerem que
a cidade foi dizimada aproximadamente dois meses depois.
[7] Isto é confirmado por outra versão do texto, que estabelece a data da erupção como 23 de novembro.
[8][9]
As pessoas sepultadas nas cinzas parecem vestir trajes mais quentes do
que as roupas de verão que poderiam estar vestindo em agosto. As frutas
frescas e vegetais nas lojas são típicos de outubro, enquanto que as
frutas de verão típicas de agosto já estavam sendo vendidas de forma
seca ou em conserva. As jarras de fermentação de vinho estavam seladas, e
isto costumava ocorrer por volta do final de outubro. Entre as
moedas
encontradas na bolsa de uma mulher, estava uma que trazia uma homenagem
ao décimo-quinto ano do imperador no poder, concluindo-se daí que ela
só poderia ter sido cunhada na segunda semana de setembro. Até hoje, não
há uma teoria definitiva sobre a razão de uma discrepância tão grande
entre as datas.
[8]
Redescoberta
"Jardim dos Fugitivos", com os moldes em gesso das vítimas do Vesúvio
Depois que as grossas camadas de cinzas cobriram Pompeia e Herculano,
estas cidades foram abandonadas e seus nomes e localizações
eventualmente esquecidos. A primeira vez em que parte delas foi
redescoberta foi em
1599, quando a escavação de um canal subterrâneo para desviar o curso do
rio Sarno esbarrou acidentalmente em muros antigos cobertos de pinturas e inscrições. O arquiteto
Domenico Fontana
foi então chamado, e ele escavou alguns outros afrescos antes de mandar
que tudo fosse coberto novamente. Tal procedimento foi visto
posteriormente tanto como um ato de preservação do sítio para gerações
posteriores quanto um ato de censura, considerando-se o conteúdo sexual
das pinturas e o clima moralista e classicista da
contra-reforma na época.
[10]
Herculano foi apropriadamente redescoberta em
1738 por operários que escavavam as fundações do palácio de verão do Rei de Nápoles,
Carlos III. Pompeia foi redescoberta como resultado de escavações intencionais realizadas em
1748 pelo engenheiro militar espanhol
Rocque Joaquin de Alcubierre.
As duas cidades passaram então a ser exploradas, revelando muitas
construções e pinturas intactas. Carlos III demonstrou bastante
interesse nas descobertas, mesmo após se tornar rei da Espanha, pois a
exibição das antiguidades reforçava o poder político e cultural de
Nápoles.
[10]
As primeiras escavações profissionais foram supervisionadas por
Karl Weber.
[11] Em seguida foi a vez do engenheiro militar Francisco la Vega, que em
1804 foi sucedido por seu irmão Pietro.
[12] Em
1860, as escavações foram assumidas por
Giuseppe Fiorelli.
No começo da exploração, descobriu-se que espaços vagos ocasionais nas
camadas de cinzas continham restos humanos. Foi Fiorelli que percebeu
que aqueles eram espaços deixados por corpos decompostos, desenvolvendo
então uma técnica de injetar
gesso
neles para recriar perfeitamente o formato das vítimas do Vesúvio. O
resultado foi uma série de formas lúgubres e extremamente fiéis dos
habitantes de Pompéia incapazes de escapar, preservados em seu último
instante de vida, alguns com uma expressão de terror claramente visível.
Esta técnica é utilizada até hoje, mas com
resina no lugar do gesso, por ser mais durável e não destruir os ossos, o que permite análises mais aprofundadas.
[13]
Em
1819, quando o rei
Francisco I das Duas Sicílias, acompanhado de sua esposa e filha, visitou uma exposição sobre Pompeia no
Museu Arqueológico Nacional de Nápoles,
ficou tão constrangido com as obras de arte eróticas que decidiu
trancafiá-las em um gabinete secreto, acessível apenas a "pessoas
maduras e de moral respeitável". Aberta, fechada, reaberta novamente e
por fim lacrada por quase 100 anos, a câmara foi tornada acessível
novamente no final da
década de 1960, e finalmente reaberta para visitação em
2000.
Menores de idade, no entanto, só podem visitar o ex-gabinete secreto na
presença de um responsável ou com autorização por escrito.
[14]
Ver também
Imagens
-
-
Objetos recuperados em Pompeia
-
Objetos recuperados em Pompeia
Referências
- ↑ Forma considerada mais correta por alguns autores, como Rebelo Gonçalves (Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa,
Coimbra, Atlântida - Livraria Editora, 1947), e Maria Helena de Teves
Costa Ureña Prieto, João Maria de Teves Costa de Ureña Prieto e Abel do
Nascimento Pena (Índice de Nomes Próprios Gregos e Latinos, Lisboa, Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica/Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. ISBN 972-31-0661-2), derivada do masculino plural latino Pompeii, passado ao português pelo étimo do acusativo plural, Pompeios.
- ↑ "Dossier Musei 2008 - Touring Club Italiano"
- ↑ "Vesuvius, A.D. 79: the destruction of Pompeii and Herculaneum", p. 83. De Carolis, Ernesto; Giovanni Patricelli (2004). L'erma Di Bretschneider. ISBN 978-8882651992
- ↑ "Crowd Control in Ancient Pompeii"
- ↑ Eros in Pompeii: The Erotic Art Collection of the Museum of Naples. Michael Grant, Antonia Mula. Nova York: Stewart, Tabori and Chang (1997)
- ↑ "Surges: Evidences at Pompeii". PloS one 5 (6): Giuseppe. doi:10.1371/journal.pone.0011127. PMC 2886100. PMID 20559555
- ↑ "The A.D. 79 Eruption at Mt. Vesuvius".. Gabi Laske. Lecture notes for UCSD-ERTH15: "Natural Disasters"
- ↑ a b "La vera data dell'eruzione", págs. 10-14. Stefani, Grete. Archeo (outubro de 2006)
- ↑ Cities of Vesuvius, pág. 223. Michael Grant. Penguin Books, Harmondsworth (1976)
- ↑ a b "A Tale of Two Cities: In Search of Ancient Pompeii and Herculaneum". Lalo Ozgenel. METU JFA 2008/1 (25:1)
- ↑ Rediscovering antiquity: Karl Weber and the excavation of Herculaneum, Pompeii, and Stabiae. Christopher Charles Parslow. Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido. ISBN 0-521-47150-8 (1995)
- ↑ I Diari di Scavo di Pompeii, Ercolano e Stabiae di Francesco e Pietro la Vega (1764-1810). Mario Pagano. "L'Erma" di Bretschneidein, Roma. ISBN 88-7062-967-8 (1997)
- ↑ "Orto dei Fuggiaschi". Marketplace.it
- ↑ Die Dichtung als Führerin zur Klassischen Kunst. Erinnerungen eines Archäologen (Lebenserinnerungen Band 58). Karl Schefold. edd. M. Rohde-Liegle et al., Hamburgo. ISBN 3-8300-1017-6 (2003)
Ligações externas