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terça-feira, 11 de junho de 2013

Gil Vicente - TEATRO NA IDADE MÉDIA

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Gil Vicente
Nascimento c. 1465
Morte c. 1536
Nacionalidade Reino de Portugal portuguesa
Ocupação dramaturgo, poeta
Principais trabalhos Auto da Barca do Inferno, Farsa de Inês Pereira
Gil Vicente (c. 1465 — c. 1536?) é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo português, além de poeta de renome. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano - partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina.
Há quem o identifique[quem?] com o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom Manuel.
A obra vicentina é tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Foi, o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa.

Índice

Biografia

Gil Vicente, tal como costuma ser representado

Local e data de nascimento

Apesar de se considerar que a data mais provável para o seu nascimento tenha sido em 1466 — hipótese defendida, entre outros, por Queirós Veloso — há ainda quem proponha as datas de 1460 (Braamcamp Freire) ou entre 1470 e 1475 (Brito Rebelo). Se nos basearmos nas informações veiculadas na própria obra do autor, encontraremos contradições. O Velho da Horta, a Floresta de Enganos ou o Auto da Festa, indicam 1452, 1470 e antes de 1467, respectivamente. Desde 1965, quando decorreram festividades oficiais comemorativas do quincentenário do nascimento do dramaturgo, que se aceita 1465 de forma quase unânime.
Frei Pedro de Poiares localizava o seu nascimento em Barcelos, mas as hipóteses de assim ter sido são poucas. Pires de Lima propôs Guimarães para sua terra natal - hipótese essa que estaria de acordo com a identificação do dramaturgo com o ourives, já que a cidade de Guimarães foi durante muito tempo berço privilegiado de joalheiros. O povo de Guimarães orgulha-se desta hipótese, como se pode verificar, por exemplo, na designação dada a uma das escolas do concelho (em Urgeses), que homenageia o autor.
Lisboa é também muitas vezes defendida como o local certo. Outros, porém, indicam as Beiras para local de nascimento - de facto, verificam-se várias referências a esta área geográfica de Portugal, seja na toponímia como pela forma de falar das personagens. José Alberto Lopes da Silva1 assinala que não há na obra vicentina referências a Barcelos nem a Guimarães, mas sim dezenas de elementos relacionados com as Beiras. Há obras inteiras, personagens, caracteres, linguagem. O conhecimento que o autor mostra desta região do país não era fácil de obter se tivesse nascido no norte e vivido a maior parte da sua vida em Évora e Lisboa.

Poeta-ourives?

Cada livro publicado sobre Gil Vicente é, quase sempre, defensor de uma qualquer tese que identifique ou não o autor ao ourives. A favor desta hipótese existe o facto de o dramaturgo usar com propriedade termos técnicos de ourivesaria na sua obra.
Alguns intelectuais portugueses polemizaram sobre o assunto. Camilo Castelo Branco escreveu, em 1881, o documento "Gil Vicente, Embargos à fantasia do Sr. Teófilo Braga" - este último defendia uma só pessoa para o ourives e para o poeta, enquanto que Camilo defendia duas pessoas distintas. Teófilo Braga mudaria de opinião depois de um estudo de Sanches de Baena que mostrava a genealogia distinta de dois indivíduos de nome Gil Vicente, apesar de Brito Rebelo ter conseguido comprovar a inconsistência histórica destas duas genealogias, utilizando documentos da Torre do Tombo. Lopes da Silva, na obra citada1 , avança uma dezena de argumentos para provar que Gil Vicente era ourives quando escreveu a sua primeira obra, uma imitação do Auto del Repelón, de Juan del Encina a quem pede emprestada não só a história, mas também as personagens com o seu respectivo idioma, o saiaguês.

Dados biográficos

Apesar de se considerar que a data mais provável para o seu nascimento tenha sido em 1466, sabe-se que casou com Branca Bezerra, de quem nasceram Gaspar Vicente(que morreu em 1519) e Belchior Vicente(nascido em 1505). Depois de enviuvar, casou com Melícia Rodrigues de quem teve Paula Vicente (1519-1576), Luís Vicente (que organizou a compilação das suas obras) e Valéria Borges. Presume-se que tenha estudado em Salamanca, Espanha.
O Monólogo do vaqueiro, como teria sido representado pelo próprio Gil Vicente, de acordo com a visão do pintor Roque Gameiro.
O seu primeiro trabalho conhecido, a peça em castelhano Auto da Visitação, também conhecido como Monólogo do Vaqueiro, foi representada nos aposentos da rainha D. Maria, consorte de Dom Manuel, para celebrar o nascimento do príncipe (o futuro D. João III) - sendo esta representação considerada como o marco de partida da história do teatro português. Ocorreu isto na noite de 8 de Junho de 1502, com a presença, além do rei e da rainha, de Dona Leonor, viúva de D. João II e D. Beatriz, mãe do rei.
Tornou-se, então, responsável pela organização dos eventos palacianos. Dona Leonor pediu ao dramaturgo a repetição da peça pelas matinas de Natal, mas o autor, considerando que a ocasião pedia outro tratamento, escreveu o Auto Pastoril Castelhano. De facto, o Auto da Visitação tem elementos claramente inspirados na "adoração dos pastores", de acordo com os relatos do nascimento de Cristo. A encenação incluía um ofertório de prendas simples e rústicas, como queijos, ao futuro rei, ao qual se pressagiavam grandes feitos. Gil Vicente que, além de ter escrito a peça, também a encenou e representou, usou, contudo, o quadro religioso natalício numa perspectiva profana. Perante o interesse de Dona Leonor, que se tornou a sua grande protectora nos anos seguintes, Gil Vicente teve a noção de que o seu talento lhe permitiria mais do que adaptar simplesmente a peça para ocasiões diversas, ainda que semelhantes.
Se foi realmente ourives, terminou a sua obra-prima nesta arte - a Custódia de Belém - feita para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1506, produzida com o primeiro ouro vindo de Moçambique. Três anos depois, este mesmo ourives tornou-se vedor do património de ourivesaria no Convento de Cristo, em Tomar, Nossa Senhora de Belém e no Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa.
Consegue-se ainda apurar algumas datas em relação a esta personagem que tanto pode ser una como múltipla: em 1511 é nomeado vassalo de el-Rei e, um ano depois, sabe-se que era representante da bandeira dos ourives na "Casa dos Vinte e Quatro". Em 1513, o mestre da balança da Casa da Moeda, também de nome de Gil Vicente (se é o mesmo ou não, como já se disse, não se sabe), foi eleito pelos outros mestres para os representar junto à vereação de Lisboa.
Autógrafo de Gil Vicente.
Será ele que dirigirá os festejos em honra de Dona Leonor, a terceira mulher de Dom Manuel, no ano de 1520, um ano antes de passar a servir Dom João III, conseguindo o prestígio do qual se valeria para se permitir a satirizar o clero e a nobreza nas suas obras ou mesmo para se dirigir ao monarca criticando as suas opções. Foi o que fez em 1531, através de uma carta ao rei onde defende os cristãos-novos.
Morreu em lugar desconhecido, talvez em 1536 porque é a partir desta data que se deixa de encontrar qualquer referência ao seu nome nos documentos da época, além de ter deixado de escrever a partir desta data.

Contexto histórico

Obras de Garcia de Resende, onde se inclui a Miscelânia onde se defende para Gil Vicente a paternidade do teatro português.

O Teatro português antes de Gil Vicente

O teatro português não nasceu com Gil Vicente. Esse mito, criado por vários autores de renome, como Garcia de Resende, na sua Miscelânia, ou o seu próprio filho, Luís Vicente, por ocasião da primeira edição da "Compilação" da obra completa do pai, poderá justificar-se pela importância inegável do autor no contexto literário peninsular, mas não é de todo verdadeiro já que existiam manifestações teatrais antes da noite de 7 para 8 de Junho de 1502, data da primeira representação do "Auto do vaqueiro" ou "Auto da visitação", nos aposentos da rainha.
Já no reinado de Sancho I, os dois actores mais antigos portugueses, Bonamis e Acompaniado, realizaram um espectáculo de "arremedilho"[1], tendo sido pagos pelo rei com uma doação de terras. O arcebispo de Braga, Dom Frei Telo, refere-se, num documento de 1281, a representações litúrgicas por ocasião das principais festividades católicas. Em 1451, o casamento da infanta Dona Leonor com o imperador Frederico III da Alemanha foi acompanhado também de representações teatrais.
Segundo as crónicas portuguesas de Fernão Lopes, Zurara, Rui de Pina ou Garcia de Resende, também nas cortes de D. João I, D. Afonso V e D.João II, se faziam encenações espectaculares. Rui de Pina refere-se, por exemplo, a um "momo", em que Dom João II participou pessoalmente, fazendo o papel de "Cavaleiro do Cisne", num cenário de ondas agitadas (formadas com panos), numa frota de naus que causou espanto entrando sala adentro acompanhado do som de trombetas, atabales, artilharia e música executada por menestréis, além de uma tripulação atarefada de actores vestidos de forma espectacular.
Contudo, pouco resta dos textos dramáticos pré-vicentinos. Além das éclogas dialogadas de Bernardim Ribeiro, Cristóvão Falcão e Sá de Miranda, André Dias publicou em 1435 um "Pranto de Santa Maria" considerado um esboço razoável de um drama litúrgico.
No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende existem alguns textos também significativos, como o Entremez do Anjo (assim designado por Teófilo Braga), de D. Francisco de Portugal, Conde de Vimioso, ou as trovas de Anrique da Mota (ou Farsa do alfaiate, segundo Leite de Vasconcelos) dedicados a temas e personagens chocarreiros como "um clérigo sobre uma pipa de vinho que se lhe foi pelo chão", entre outros episódios divertidos.
É provável que Gil Vicente tenha assistido algumas destas representações. Viria, contudo, sem qualquer dúvida, a superá-las em mestria e em profundidade, tal como diria Marcelino Menéndez Pelayo ao considerá-lo a "figura mais importante dos primitivos dramaturgos peninsulares", chegando mesmo a dizer que não havia "quem o excedesse na Europa do seu tempo".

Obra

Características principais

A sua obra vem no seguimento do teatro ibérico popular e religioso que já se fazia, ainda que de forma menos profunda. Os temas pastoris, presentes na escrita de Juan del Encina vão influenciar fortemente a sua primeira fase de produção teatral e permanecerão esporadicamente na sua obra posterior, de maior diversidade temática e sofisticação de meios. De facto, a sua obra tem uma vasta diversidade de formas: o auto pastoril, a alegoria religiosa, narrativas bíblicas, farsas episódicas e autos narrativos.
Ilustração da edição original do Auto da Barca do Inferno
O seu filho, Luís Vicente, na primeira compilação de todas as suas obras, classificou-as em autos e mistérios (de carácter sagrado e devocional) e em farsas, comédias e tragicomédias (de carácter profano). Contudo, qualquer classificação é redutora - de facto, basta pensar na Trilogia das Barcas para se verificar como elementos da farsa (as personagens que vão aparecendo, há pouco saídas deste mundo) se misturam com elementos alegóricos religiosos e místicos (o Bem e o Mal).
Gil Vicente retratou, com refinada comicidade, a sociedade portuguesa do século XVI, demonstrando uma capacidade acutilante de observação ao traçar o perfil psicológico das personagens. Crítico severo dos costumes, de acordo com a máxima que seria ditada por Molière ("Ridendo castigat mores" - rindo se castigam os costumes), Gil Vicente é também um dos mais importantes autores satíricos da língua portuguesa. Em 44 peças, usa grande quantidade de personagens extraídos do espectro social português da altura. É comum a presença de marinheiros, ciganos, camponeses, fadas e demônios e de referências – sempre com um lirismo nato – a dialetos e linguagens populares.
Entre suas obras estão "Auto Pastoril Castelhano" (1502) e Auto dos Reis Magos (1503), escritas para celebração natalina. Dentro deste contexto insere-se ainda o Auto da Sibila Cassandra (1513), que, embora até muito recentemente tenha sido visto como um prenúncio dos os ideais renascentistas em Portugal, retoma uma narrativa já presente na General Estória de Afonso X. Sua obra-prima é a trilogia de sátiras Auto da Barca do Inferno (1516), Auto da Barca do Purgatório (1518) e Auto da Barca da Glória (1519). Em 1523 escreve a Farsa de Inês Pereira.
Auto de Mofina Mendes, onde se inclui uma anunciação, de acordo com os temas marianos, gratos ao autor
São geralmente apontados, como aspectos positivos das suas peças, a imaginação e originalidade evidenciadas; o sentido dramático e o conhecimento dos aspectos relacionados com a problemática do teatro.
Alguns autores consideram que a sua espontaneidade, ainda que reflectindo de forma eficaz os sentimentos colectivos e exprimindo a realidade criticável da sociedade a que pertencia, perde em reflexão e em requinte. De facto, a sua forma de exprimir é simples, chã e directa, sem grandes floreados poéticos.
Acima de tudo, o autor exprime-se de forma inspirada, dionisíaca, nem sempre obedecendo a princípios estéticos e artísticos de equilíbrio. É também versátil nas suas manifestações: se, por um lado, parece ser uma alma rebelde, temerária, impiedosa no que toca em demonstrar os vícios dos outros, quase da mesma forma que se esperaria de um inconsciente e tolo bobo da corte, por outro lado, mostra-se dócil, humano e ternurento na sua poesia de cariz religioso e quando se trata de defender aqueles a quem a sociedade maltrata.
O seu lirismo religioso, de raiz medieval e que demonstra influências das Cantigas de Santa Maria está bem presente, por exemplo, no Auto de Mofina Mendes, na cena da Anunciação, ou numa oração dita por Santo Agostinho no Auto da Alma. Por essa razão é, por vezes, designado por "poeta da Virgem".
O seu lirismo patriótico presente em "Exortação da Guerra", Auto da fama ou Cortes de Júpiter, não se limita a glorificar, em estilo épico e orgulhoso, a nacionalidade: de facto, é crítico e eticamente preocupado, principalmente no que diz respeito aos vícios nascidos da nova realidade económica, decorrente do comércio com o Oriente (Auto da Índia). O lirismo amoroso, por outro lado, consegue aliar algum erotismo e alguma brejeirice com influências mais eruditas (Petrarca, por exemplo).

Elementos filosóficos na obra vicentina

A obra de Gil Vicente transmite uma visão do mundo que se assemelha e se posiciona como uma perspectiva pessoal do Platonismo: existem dois mundos - o Mundo Primeiro, da serenidade e do amor divino, que leva à paz interior, ao sossego e a uma "resplandecente glória", como dá conta sua carta a D. João III; e o Mundo Segundo, aquele que retrata nas suas farsas: um mundo "todo ele falso", cheio de "canseiras", de desordem sem remédio, "sem firmeza certa". Estes dois mundos reflectem-se em temas diversos da sua obra: por um lado, o mundo dos defeitos humanos e das caricaturas, servidos sem grande preocupação de verosimilhança ou de rigor histórico.
Primeira página do Auto de Moralidade.
Muitos autores criticam em Gil Vicente os anacronismos e as falhas na narrativa (aquilo a que chamaríamos hoje de "gaffes"), mas, para alguém que considerava o mundo retratado como pleno de falsidades, essas seriam apenas mais algumas, sem importância e sem dano para a mensagem que se pretendia transmitir. Por outro lado, o autor valoriza os elementos míticos e simbólicos religiosos do Natal: a figura da Virgem Mãe, do Deus Menino, da noite natalícia, demonstrando aí um zelo lírico e uma vontade de harmonia e de pureza artística que não existe nas suas mais conhecidas obras de crítica social.
Sem as características do maniqueísmo que tantas vezes se constatam nas peças teatrais de quem defende uma tal visão do Mundo, há, realmente, a presença de um forte contraste nos elementos cénicos usados por Gil Vicente: a luz contra a sombra, não numa luta feroz, mas em convivência quase amigável. A noite de natal torna-se também aqui a imagem perfeita que resume a concepção cósmica de Gil Vicente: as grandes trevas emolduram a glória divina da maternidade, do nascimento, do perdão, da serenidade e da boa vontade - mas sem a escuridão, que seria da claridade?

Personagens

  • Alcoviteira (Gil Vicente)
  • O Fidalgo
  • O Parvo
  • O padre
  • Os quatro cavaleiros
  • Todo-o-mundo
  • Ninguém
  • Berzabu
  • Dinato
  • Inês Pereira
  • Pero Marques
  • Brás da Mata

Legado

Tão importante foi o trabalho de Gil Vicente que Erasmo de Roterdão, filósofo holandês, estudara o idioma português para assim poder apreciar sua obra no original. Seu estilo deu origem à escola de Gil Vicente, ou escola popular, tendo por modelo as coisas simples do povo.2
Note-se que a obra de Gil Vicente não se resume ao teatro, estendendo-se também à poesia. Podemos citar vários vilancetes e cantigas, ainda influenciadas pelo estilo palaciano e temas dos trovadores.
Vários compositores trabalharam poemas de Gil Vicente na forma de lied (principalmente algumas traduções para o alemão, feitas por Emanuel von Geibel), como Max Bruch ou Robert Schumann, o que demonstra o carácter universal da sua obra. Os seus filhos, Paula e Luís Vicente, foram os responsáveis pela primeira edição das suas obras completas. Em 1586, sai à estampa uma segunda edição, com muitas passagens censuradas pela Inquisição. Só no século XIX se faria a redescoberta do autor, com a terceira edição de 1834, em Hamburgo, levada a cabo por Barreto Feio.

Obras

Referências

  1. a b O mundo religioso de Gil Vicente, Covilhã, Universidade da Beira Interior, 2002
  2. José Marques da Cruz. História da Literatura. [S.l.]: Brasiliense, 1939. 215 p.

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quinta-feira, 21 de março de 2013

Etruscos

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civilização etrusca
Os etruscos eram um aglomerado de povos que viveram na península Itálica na região a sul do rio Arno e a norte do Tibre, mais ou menos equivalente à atual Toscana, com partes no Lácio e a Úmbria. Eram chamados Τυρσηνοί, tyrsenoi, ou Τυρρηνοί, tyrrhenoi, pelos gregos e tusci, ou depois etrusci, pelos romanos; eles auto-denominavam-se rasena ou rašna. É pela sua designação grega que se fala de mar Tirreno [1].
Desconhece-se ao certo quando os etruscos se instalaram aí, mas foi provavelmente entre os anos 1 200 a.C. e 700 a.C.. Nos tempos antigos, o historiador Heródoto acreditava que os Etruscos eram originários da Ásia Menor, mas outros escritores posteriores consideram-nos itálicos. A sua língua, que utilizava um alfabeto semelhante ao grego, era diferente de todas as outras e ainda não foi decifrada, e a religião era diferente tanto da grega como da romana.
A Etrúria era composta por cerca de uma dúzia de cidades-estados (Volterra, Fiesole, Arezzo, Cortona, Perugia, Chiusi, Todi, Orvieto, Veios, Tarquinia e Fescênia), muito civilizadas que tiveram grande influência sobre os Romanos. A Fescênia, próxima a Roma, ficou conhecida como um local de devassidão. Versos populares licenciosos, na época muito cultivados entre os romanos, ficaram conhecidos como versos fesceninos (obscenos).
Os últimos três reis de Roma, antes da criação da república em 509 a.C., eram etruscos. Verificaram-se prolongadas lutas entre a Etrúria e Roma, terminando com a vitória desta última no século III a.C.

Índice

Apogeu e decadência

Cidade de Bagnoregio, de origem etrusca. Esta estrada foi, outrora, a principal via de ligação com o rio Tibre e Roma.
Por volta de século IX a.C. (c.a. 850 a.C.), os etruscos já estavam estabelecidos na região da Etrúria, entre os rios Arno e Tibre, a oeste e sul da cadeia dos Apeninos. Nos três séculos posteriores, difundiram seus domínios submetendo os povos locais, ocupando vastas áreas da planície do rio e fundaram cidades que existem até hoje. Em direção ao sul, tomaram Roma - então um aglomerado de aldeias - e transformaram-na em uma cidade cercada de muros. Acredita-se que os Tarquínios - uma dinastia de reis etruscos - governaram Roma por volta de 616 a.C. a 509 a.C..
Durante o processo de expansão, os etruscos atingiram até a região da Campânia, onde fundaram Cápua que, desde o início do século VI a.C., representou um centro comercial capaz de rivalizar com as colônias gregas vizinhas: Cuma e Neápolis (Nápoles). Por volta de 540 a.C., aliados aos cartagineses, derrotam os Fócios da Córsega. Essa vitória assegurou-lhes o controle da ilha e marcou o apogeu da expansão territorial.
Entretanto, os etruscos foram expulsos de Roma pelos latinos em 509 a.C.; tiveram sua fronteira destruída pelos gregos de Siracusa e Cuma em 476 a.C. Em 424 a.C., perderam a Campânia para os samnitas e, logo a seguir, o vale do rio Pó foi ocupado pelos celtas. Em 396 a.C., com a tomada de Veios, os romanos incorporaram ao seu território o que restava da Etrúria.

Origens

Cabeça de guerreiro (Necrópole de Crocifisso del Tufo, Orvieto, Itália)
A origem dos etruscos permanece uma incógnita, embora existam várias teorias a respeito. Duas delas são as que têm maior peso:
  1. A teoria orientalista, proposta por Heródoto, que crê que os etruscos chegaram desde Lídia por volta do século XIII a.C. Para demonstrá-lo baseiam-se nas supostas características orientais da sua religião e costumes, bem como que se tratava de uma civilização muito original e evoluída comparada com os seus vizinhos.
  2. A teoria de autoctonia, proposta por Dionísio de Halicarnasso, que considerava os etruscos como oriundos da península Itálica. Para argumentá-la, esta teoria explica que não há indícios de que a civilização etrusca tenha se desenvolvido em outros lugares e que o estrato lingüístico é mediterrâneo e não oriental. Em suas Antiguidades Romanas (livro I, capítulo 25) Halicarnasso considera que "(...)o povo etrusco não emigrou de parte alguma e sempre esteve aqui".. [2]
Outra teoria, já descartada, foi a de uma origem "nórdica", defendida em finais do século XIX e primeira metade do século XX. Era baseada somente em parafonias, na similitude da sua autodenominação (rasena) com a denominação que os romanos deram a certos povos celtas que habitavam a Norte dos Alpes, no atual Leste da Suíça e Oeste da Áustria: os ræthii ou réticos.
A teoria atualmente mais fundamentada de certa forma sintetiza as de Heródoto e Dionísio de Halicarnasso: considera-se, por vários traços culturais (por exemplo, os alfabetos), um forte influxo cultural derivado de alguma migração procedente de sudoeste de Anatólia, mais precisamente desde o território que os gregos chamaram Karya (Cária), tal influxo cultural ter-se-ia estendido sobre povos autóctones situados na que atualmente é a Toscana Talvez as respostas se encontrem na cultura de Villanova, representada por cerca de 100 tumbas encontradas na povoação de Villanova de Castenaso, em Bolonha, possíveis antecedentes da cultura etrusca. Por volta do século VII a.C. existiam doze cidades-estado independentes que se atribuem a Tarcão, filho ou irmão de Tirreno.[2]
Esta tese da origem oriental dos etruscos é a mais conhecida na Antiguidade, tanto que os poetas latinos, principalmente Virgílio, designam frequentemente os etruscos pelo nome de Lydi.[2]
os gregos e os romanos foram os primeiros a se interrogarem sobre a origem dos etruscos. No início, Heródoto[3] situa a origem dos etruscos na Lídia (na atual Turquia). Segundo Heródoto, depois de um período de dificuldades e grande fome (vinte anos), um rei confiou ao filho, Tirreno, a missão de levar o seu povo para uma terra produtiva. Estes lídios conseguiram chegar à Itália e foram denominados de Tirrenos. Os elementos míticos dessa lenda, a fome, a partida para um lugar desconhecido, eram comuns neste gênero de relatos.[2]
No seu apogeu século IV a.C. um extraordinário desenvolvimento político, social e artístico levou os etruscos a controlar vastos territórios (da planície do rio Pó até o golfo de Salerno). A região onde prosperaram, entre o Arno e o Tibre se chama Toscana por causa do nome que tinham em latim, Tusci. O mar que banha a costa da região se chama Tirreno, termo derivado de Tirrenoi, como os gregos denominaram os etruscos.[2]
Até o século VIII a.C., a Toscana era povoada por cidades de cabanas humildes que indicam a vida modesta de sua população. Talvez por isso, o fascínio pela busca da origem de um povo de língua incomparável e que vivia com refinamento.[2]

Organização política e social

Sarcófago etrusco, Museu Britânico
Politicamente, a Etrúria era organizada em federações de doze cidades unidas por laços estritamente religiosos, o que é chamado Dodecápolis, mas esta aliança não era política, nem militar e cada cidade era independente.
A estrutura política é, a princípio, a de uma monarquia absoluta, onde o rei (lucumo) distribui justiça, age como sumo-sacerdote e comandante em chefe do exército. Depois se dá uma transição onde o governo é uma ditadura de corte militar, a qual termina numa república, em essência oligárquica, com magistraturas colegiadas, um senado forte e estável e a participação de uma assembleia popular em representação do povo.
Na pirâmide social etrusca, podemos distinguir quatro escalões:
  • Em primeiro lugar estavam os terratenentes, membros da oligarquia.
  • Plebe livre, ligada por laços de clientela aos anteriores.
  • Estrangeiros, geralmente gregos, que eram artesãos e mercadores.
  • Por último, escravos. Os etruscos tinham uma grande quantidade de escravos para serviço doméstico e agrário.

A família e o papel da mulher

Estatueta funerária de Chianciano, século V a.C., Museu Arqueológico de Florença
A mulher etrusca, ao contrário da grega ou da romana, não era marginalizada da vida social, senão que participava ativamente dos banquetes, nos jogos ginásticos e nas danças. Esta situação social da mulher entre os etruscos, muito mais livre que entre gregos e romanos, fez que gregos e latinos considerassem "promíscua" e "licenciosa" a cultura etrusca. Entre helenos e latinos as mulheres estavam absolutamente subordinadas aos varões.[carece de fontes]
A mulher ademais tinha uma posição relevante entre os aristocratas etruscos, pois que estes últimos eram poucos e amiúde estavam envolvidos na guerra: por isto, os homens escasseavam. Esperava-se que a mulher, em caso de morte do marido, assumisse a tarefa de assegurar a conservação das riquezas e a continuidade da família. Também através dela transmitia-se a herança.

Líderes etruscos conhecidos

  • Osiniu (em Clusium) provavelmente em princípio do século XI a.C.
  • Mezentius 1 100 a.C.
  • Lausus (em Caere)
  • Tyrseos
  • Velsu século VIII a.C.
  • Larthia (em Caere)
  • Arinestos (em Arinus)
  • Lars Porsena (em Clusium) finais do século VI a.C.
  • Thefarie Velianas (em Caere) finais do século V a.C. – princípio do século IV a.C.
  • Aruns (em Clusium) por volta de 500 a.C.
  • Volumnius (em Veii) em meados do século a.C.437 a.C.
  • Lars Tolumnius (em Veii) finais do século a.C.428 a.C.
  • Tarquinius século IV a.C.)

Relações com outros povos (aliados e inimigos)

Povos da península Itálica no princípio da Idade do Ferro
  Ligures
  Veneti
  Etruscos
  Picenos
  Latinos
  Oscos
  Gregos
Durante toda a existência da sua civilização, os etruscos foram um povo comerciante, principalmente marítimo, embora também terrestre. Por outro lado, as suas terras viram-se invadidas várias vezes por povos bárbaros já que as suas cidades eram muito ricas e cobiçadas, eram passo obrigado para as férteis terras da Campânia e para chegar a Roma (como ocorreu, por exemplo, com a invasão de Aníbal).
A princípio aliaram-se e repartiram as zonas de influência marítima com os fenícios, contra os helenos. Por volta do século IV a.C. estreitaram relações com Corinto e cessou a hostilidade com os gregos. Contudo, em 545 a.C. aliaram-se com os cartagineses novamente contra os gregos.
Teve numerosos inimigos. Desde um princípio, a Liga Latina (com Roma de aliada ou à frente da mesma), no Lácio; na Campânia os samnitas; nas costas e ilhas os siracusanos e cumitas e nas planícies do os povos celtas seriam inimigos da Etrúria. Apenas conservariam como aliado incondicional, durante toda a história desta civilização, os faliscos (povo que ficava a Oeste do Tibre).
Por volta de 300 a.C., aliaram-se com os helenos contra cartagineses e romanos, pelo controlo das rotas comerciais.
Ao redor de 295 a.C., uma liga de etruscos, sabinos, umbros e gauleses cisalpinos combateu contra Roma, saindo esta última vitoriosa. Contudo, em sucessivas alianças temporárias com os gauleses continuaram lutando contra os romanos, até ter lugar uma aliança com Roma contra Cartago. Após isso, os etruscos, já em decadência, começaram a ser absorvidos pelos romanos.

Língua, alfabeto e inscrições

O etrusco é uma língua aparentemente não aparentada com as línguas indo-europeias.[4] É de salientar que a fonética é completamente diferente da do grego ou do latim, embora influísse neste em vários aspetos fonéticos e léxicos.[5] Caracteriza-se por ter quatro vogais, /a/, /e/, /i/, /o/, redução dos ditongos, tratamento especial das semivogais. Nas consoantes carecia da oposição entre surdas e sonoras, embora nas oclusivas tinha contraste entre aspiradas e não aspiradas.

Alfabeto

O etrusco utilizava a variante calcídica do alfabeto grego,[6] pelo qual pode ser lido sem dificuldade, embora não compreendido. Deste alfabeto grego básico, algumas das letras não eram utilizadas em etrusco (as oclusivas sonoras) e ademais acrescentavam um grafema para /f/ e a digamma grega utilizava-se para o fonema /v/ inexistente em grego.

Inscrições

As principais evidências da língua etrusca são epigráficas, que vão desde o século VII a.C. (diz-se que os etruscos começaram a escrever no século VII a.C., mas a sua gramática e seu vocabulário diferem de qualquer outro conhecido do mundo antigo) até princípios da era cristã. São conhecidas cerca de 10.000 destas inscrições, que são sobretudo breves e repetitivos epitáfios ou fórmulas votivas ou que assinalam o nome do proprietário de certos objetos. Além deste material, contamos com alguns outros testemunhos mais valiosos:
numeral cinco etrusco
  1. O Liber Linteus ou texto de Agram é o texto etrusco mais extenso com 281 linhas e umas 1.300 palavras. Escrito num rolo de linho, posteriormente foi cortado a tiras e utilizado no Egito para envolver o cadáver mumificado de uma mulher nova; conserva-se atualmente no museu de Zagrebe (provavelmente quando isto sucedeu considerava-se que tinha mais valor o rolo de linho que o próprio texto, que paradoxalmente hoje é nosso melhor testemunho da língua; talvez se não tivesse sido conservado como envoltura nem sequer teria chegado até nós).
  2. Alguns textos sobre materiais não perecíveis como uma tabela de argila encontrada perto de Cápua de cerca de 250 palavras, o cipo de Perugia (ver foto) escrito por duas caras e com 46 linhas e cerca de 125 palavras, um modelo de bronze de um fígado encontrado em Piacenza (cerca de 45 palavras).
  3. Além destes testemunhos temos duas mais inscrições interessantíssimas: a primeira delas é a inscrição de Pyrgi, encontrada em 1964, sobre lâminas de ouro que apresenta a peculiaridade de ser um texto bilíngüe em etrusco e púnico-fenício e que ampliou consideravelmente nosso conhecimento da língua. A segunda das inscrições resulta algo intrigante, já que foi encontrada na ilha de Lenos (N. do mar Egeu, Grécia). Composta de 34 palavras, parece escrita num dialeto diferente dos encontrados na península Itálica, quer seja sintomático da presença de colônias etruscas em outros pontos do mediterrâneo, quer de uma língua irmã do etrusco, o lénio, embora se acredite que a presença de uma só inscrição não aclara grande coisa.
Seguramente a inscrição de Pyrgi é a única inscrição etrusca razoavelmente longa que podemos traduzir ou interpretar convenientemente graças a que o texto púnico, que parece ser uma tradução quase exata do texto etrusco, é perfeitamente traduzível. Quanto ao acesso às inscrições: a maioria de inscrições etruscas conhecidas e publicadas encontram-se recolhidas no corpus inscriptionum etruscarum (CIE).

Arte

Sarcófago etrusco, 520 a.C., Museu Nacional de Vila Júlia, Roma
Destaca-se a arte funerária e a sua relação na pintura e escultura, destacando-se as suas terracotas e o talhe de uma pedra local chamada "nenfro". Desenvolveram uma importante indústria de ourivesaria, trabalharam o bronze, a sua metalurgia caracteriza-se pelas suas gravuras, graneados, filigranas e repuxados, em relação à coroplastia criaram o estilo Buchero em cerâmica. Todos estes produtos foram base para a exportação tanto para Norte da Europa como para Oriente. Outro ponto importante é a pintura onde várias escolas produziram frescos admiráveis, mas a mesma tem temas marcadamente narrativos, anedóticos e nomeadamente funerários. Embora a arte etrusca, como outras artes do Mediterrâneo Ocidental, se visse influenciada fortemente pela arte da Grécia Clássica, guarda características singulares; muito relacionada aos rituais funerários, legou a Roma um extraordinário naturalismo quanto à representação de rostos: os bustos são praticamente uma invenção etrusca, o busto propriamente dito, realizado em bronze fundido, difere do "busto" grego, neste último a pessoa retratada acostuma estar idealizada, não assim no genuíno busto etrusco. As cores preferidas na pintura pelos etruscos foram vermelho, verde e azul, pelo jeito porque lhes assinavam conotações religiosas. Entre as obras mais salientáveis encontram-se:
Músico etrusco da "Tumba do Triclínio", em Tarquinia.
  • O Apolo de Veius escultura do deus Apolo do século VI a.C. encontrada no templo-santuário em honra da deusa Minerva de Portonacio.
  • A Quimera de Arezzo: datada entre 380 a.C. e 360 a.C.A quimera, segundo a mitologia romana, foi abatida por Belerofonte, na garupa do seu cavalo Pégaso. Após a sua descoberta em 1553, converteu-se em símbolo do nacionalismo toscano [7]
  • Lupa Capitolina: esta célebre escultura chegou a ser um símbolo de Roma, porém tudo indica que é uma obra etrusca do século IV a.C.. Quanto às duas crianças que representam Rômulo e Remo, foram forjados e acrescentados no século XVI.
  • O chamado Marte de Todi, escultura de um guerreiro armado de um jeito semelhante ao dos hoplitas gregos, embora o armamento (tipo de couraça, etc.) seja, de fato, etrusco.
  • L'Arringatore (o orador): datada entre o século II a.C. e o século I a.C. Aparentemente, representa um nobre chamado Aule Meteli, mas é desconhecido quem era.
  • O sarcófago do casal: datado por volta de 520 a.C.. Foi encontrado numa necrópole em Cerveteri. Construído em terracota, a tampa do sarcófago representa um casal recostado num triclínio.
  • O Frontão de Talamone, frontão com relevos de terracota de um templo etrusco do século II a.C.

Arquitetura

A necrópole de Polulonia
Para os templos utilizava-se a pedra, enquanto para as moradias utilizava-se o adobe, com estrutura de madeira e revestimento de argila cozido.
Os etruscos conheciam o arco de meio ponto, a abóbada de canhão, e a cúpula, elementos que utilizaram –entre outras coisas– para a construção de pontes. Também construíram canais para drenar as zonas baixas, levantaram muralhas defensivas de pedra, mas, sobretudo, destacou a arquitetura funerária, em forma de impressionantes hipogeus. Os templos estavam inspirados no modelo grego, embora apresentassem notáveis diferenças: costumavam ser menores, de planta quadrangular, fechados, sem peristilo, somente com uma fileira de colunas da ordem chamada "toscano" a jeito dos pronaos gregos, e o altar estava sobre um fojo, chamado pelos latinos mundus -limpador, purificador- (a palavra talvez seja de origem etrusca), é dizer, um orifício que, simbolicamente, serviria para jogar os restos dos sacrifícios.

Religião

Existem certas analogias com religiões orientais (especialmente com a de Suméria e Caldeia e mesmo a egípcia).
O tipo de religião é de revelação, e está plasmada numa série de livros sagrados, os quais têm temas tais como a interpretação dos raios, a adivinhação, a retidão do estado e dos indivíduos e até um análogo do Livro dos Mortos egípcio. Tudo o compêndio religioso é conhecido como "Doutrina Etrusca". Esta se dividia em "Doutrina Teoria" e "Preceitos Práticos", e estava dedicada à procura da interpretação de praticamente tudo fora do comum para predizer o porvir.
Os sacerdotes denominavam-se arúspices, e sempre tiveram uma posição de privilégio na sociedade. Os arúspices especializavam-se em "interpretar" o que consideravam diversos "signos" proféticos: a adivinhação a partir da observação dos fígados de animais sacrificados, a crença em que se podia adivinhar o futuro observando os raios (ceraunomância) ou outros meteoros, e a "interpretação" com intenções divinatórias dos voos das aves. Havia rituais de todo tipo, tanto dirigidos ao estado quanto aos indivíduos, extremamente minuciosos e formais, até o ponto de os considerarem como ciência.
Urna funerária etrusca
O panteão de deuses etrusco está intimamente ligado à influência da mitologia grega, daí que for adorados deuses homólogos aos gregos, embora formasse uma tríada, similar à Creto-micênica. A mais importante foi: Tínia (Zeus), Uni (Hera) e Menrfa (Atena), que se veneravam em templos tripartites. Também existia a crença na existência de demônios maléficos, ao jeito assírio.
Os etruscos criam no mais além, daí as manifestações de grande importância nos lugares de enterramento. Um dos túmulos mais conhecidos é o Hipogeu dos Volumni, nos arredores de Perugia.
É importante salientar que o sagrado interveio sem interrupção nas suas vidas e a sua presença agoniava seus espíritos e corações, embora um jeito de paliar ou atenuar isto foi uma moral que resultava "licenciosa" para os gregos e romanos. É quase com segurança que dos etruscos tomaram os romanos a noção de "circo" já não para representações teatrais senão para lutas entre gladiadores: em efeito, entre os etruscos estas lutas costumavam fazer parte de sacrifícios fúnebres de pessoas da elite, ou uma "diversão" realizada com os prisioneiros de guerra.

Trajes e vestimentas

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Os trajes utilizados pela civilização eram, geralmente, costurados e drapeados. As mulheres etruscas, diferentemente das gregas, participavam ativamente da vida pública e se igualavam aos homens, inclusive quando às vestimentas. Elas usavam mantos e túnicas, semelhantes às vestimentas masculinas, mas para não ficar exatamente como os homens, usavam adornos, além de sapatos e chapéus diferentes.

Referências

  1. Dic. Lello Universal
  2. a b c d e f História Viva, nº04, pp. 52-54. Editora Duetto. São Paulo (2004).
  3. Primeiro livro (Clio) da obra de Heródoto, Capítulo 94.
  4. Língua Etrusca em proel.org
  5. Língua etrusca em Lingvae Imperii
  6. Alfabeto etrusco em proel.org
  7. ver Quimera de Arezzo

Bibliografia

  • BLOCH, Raymond: Los Etruscos. Eudeba 1981, Sexta edição.
  • LARA PEINADO, Federico: Los Etruscos. Ediciones Cátedra, Madrid, 2007.
  • WALKER, Joseph. Los etruscos - Edimat Libros, 2004
  • BARATTE, François e METZGER,Catherine. Etruria y Roma, historia ilustrada de las formas artísticas - Alianza Editorial, 1982
  • BELTRÁN MARTÍNEZ, Antonio. Arqueología clásica - Ed. Pegaso , 1949
  • CALVET. Louis-Jean. Historia de la escritura - Paidos, 2001
  • PFLUGHAUPT, Laurent. Lettres Latines - Ed. Alternatives, 2003
  • GRIMAL, Pierre. Diccionario de mitología griega y romana , - Paidos, 1981
  • CORNELL, Tim e MATTHEWS, John. Atlas culturales del mundo: Roma, legado de un Imperio - Ed. Folio, 1993
  • DUBY, Georges. Atlas histórico mundial - Ed. Debate, 1987
  • ANDERSON, R.G.W. El Museo Británico - British Museum Press, 1999
  • MEDIAVILLA, Claude L'ABC de la calligraphie - Flammarion, 2000

Ver também

Ligações externas

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